Pesquisa divulgada pelo Instituto Infinis, em parceria com a Quaest, expõe uma contradição que há décadas acompanha a educação de crianças no Brasil. Nove em cada dez brasileiros afirmam acreditar que o diálogo é a melhor forma de orientar os filhos. No entanto, quando confrontados com suas próprias atitudes, a maioria admite recorrer justamente aos comportamentos que diz reprovar: gritos, tapas e até agressões com objetos. A distância entre o discurso e a prática revela que a violência contra crianças permanece profundamente enraizada nas relações familiares e ainda encontra espaço na cultura brasileira.
Os números falam por si: 62% dos entrevistados afirmam já ter gritado com uma criança, quase metade admite ter dado tapas e mais de um quarto reconhece ter utilizado objetos para bater. Ainda que a pesquisa mostre uma redução desses índices em relação ao levantamento realizado em 2023, especialmente nas agressões consideradas mais graves, o cenário continua preocupante. Afinal, nenhuma forma de violência pode ser tratada como instrumento legítimo de educação.
O problema torna-se ainda mais evidente quando confrontado com os dados oficiais. Apenas nos quatro primeiros meses de 2026, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania registrou 115.814 denúncias de violações de direitos de crianças e adolescentes. Embora esses registros envolvam diferentes tipos de violência e não apenas castigos físicos, eles demonstram a dimensão de um desafio que atinge uma população de aproximadamente 55 milhões de brasileiros com menos de 18 anos.
A pesquisa também reforça um aspecto conhecido pelos especialistas: a violência tende a atravessar gerações. Segundo os pesquisadores, pessoas que sofreram agressões na infância apresentam maior propensão a reproduzir comportamentos semelhantes na vida adulta. Romper esse ciclo exige mais do que condenar episódios extremos que ganham repercussão pública. Exige reconhecer que pequenas agressões, muitas vezes tratadas como práticas educativas comuns, também deixam marcas e contribuem para naturalizar a violência nas relações familiares.
É fundamental romper o ciclo intergeracional da violência e orientar políticas públicas de prevenção. A mudança depende de informação, conscientização e da construção de uma cultura que valorize o diálogo como ferramenta efetiva de educação.
Educar é estabelecer limites, orientar e preparar crianças para a convivência em sociedade. Mas isso não exige violência. Quando a maioria da população afirma acreditar no diálogo, existe um ponto de partida importante. O desafio agora é transformar essa convicção em prática cotidiana. Proteger a infância significa reconhecer que respeito, escuta e orientação produzem resultados mais consistentes do que qualquer forma de agressão. É um compromisso que começa dentro de casa, mas diz respeito a toda a sociedade.


